Eu não queria ver vocês cuspindo ódio


“Quisera eu escrever só de amor. O mundo se mata, retrata a vontade de um outro Senhor. Ufanos, insanos, de enfeites mais “bélicos”. Incrédulos, nós vemos como se invade e se mata, é o império do terror. Árvores abatidas se transformam em mísseis apontados e fazem risos desgraçados, dor, é a indústria do terror.”

 

territórios israelEscrevi estes versos há muitos anos atrás. Era a forma que eu via e, infelizmente, continuo vendo. Guerras e mais guerras. Povos, religiões, crenças, rivalidades da mais nefasta diversidade.

Em 1995 tive uma experiência de vida fantástica ao fazer um curso de especialização em Israel. Aprendi muito, claro, sobre o motivo do curso como também história. Conheci o país inteiro de norte a sul e de leste a oeste, o que não é muito difícil haja vista o seu espaço territorial. Só pra vocês terem uma ideia, na sua parte mais estreita o país tem 14 km, distância tão curta que no domingo retrasado, no último treino longo preparatório para a meia maratona do Rio de Janeiro, levei apenas 1 hora e 13 minutos para percorrer.

O seu litoral inteiro é de apenas 273 quilômetros, sendo em km2 comparado ao estado de Sergipe.

Foi um período especial para mim. Recém saído de uma relação que durara quatro anos, e ainda bastante sofrido, resolvi procurar outros ares. Sair um pouco, conhecer novas pessoas, um novo país com uma cultura radicalmente diferente da nossa. Foi muito bom. Não deu pra cicatrizar as minhas feridas totalmente, mas, sem dúvida voltei muito melhor. Sobre as feridas vai ser uma outra história pra contar, mas com certeza foi com o melhor remédio que as curei: um outro grande amor, alguns anos depois.

Cheguei a Telaviv num final de tarde após uma escala de seis horas na Suíça. Sozinho e sem falar nada da língua. Por sorte grande parte da população fala o inglês e o meu consegue me levar a algum lugar. Bom, consegui sair do aeroporto e chegar ao meu destino, o campus do partido trabalhista na cidade de Kfar-saba, onde fiquei hospedado e se realizava o curso.

Fiquei muito bem impressionado com o país. Um povo determinado e disciplinado. Lá todos os jovens ao completarem 18 anos, sejam homens ou mulheres, obrigatoriamente, prestam o serviço militar. Todos os reservistas, até os 51 anos de idade, são obrigados a passar um mês por ano no serviço militar.

Andei muito de ônibus e pude observar  sempre o rádio do coletivo ligado. Aquele era o canal de comunicação. Quando acontece alguma coisa importante, o chamado das forças armadas é feito por ele, ao ponto do motorista parar o ônibus onde estiver e sair para cumprir sua missão pré-determinada. Os passageiros não reclamam pois todos conhecem os procedimentos nestas situações.

Fui a Jerusalém várias vezes, conhecendo os dois lados, judeu e árabe. Passei aperto um dia no lado árabe de Jerusalém quando tirei uma foto de uma mulher com burca que estava dentro de uma livraria. O comerciante se dirigiu para mim esbravejando e, mesmo falando em árabe, entendi tudinho e me mandei. Depois ri do susto.

Conheci a fantástica medicina local, inclusive um hospital subterrâneo devido as guerras. Desmistifiquei o Shabat conhecendo Telaviv na sexta-feira à noite, uma festa. Shabat só funciona para os ortodoxos.

Passei uma semana em um kibutz onde vi grandes plantações em terrenos que há 70 anos eram deserto. Conheci uma universidade que o foco de seus estudos era baseado em desenvolver técnicas para plantações em um solo arenoso e difícil, com grandes resultados. Sabem exatamente a quantidade de água que uma planta necessita para sobreviver e, por isso, seus jardins públicos eram dotados de mangueiras perfuradas que através de um sistema informatizado derramava a quantidade de gotas necessárias para mantê-las vivas e bonitas.

Justifica-se pelo fato de Israel ter muito pouca água. A fonte principal, além da Cisjordânia, está nas Colinas de Golan, um espaço militarmente protegido, território Sírio que foi incorporado ao estado de Israel em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, assim como também o foram a Cisjordânia,  Jerusalém Oriental e a Península do Sinai. Ainda em 1967 a Faixa de Gaza foi ocupada por Israel. Com todas estas incorporações de terra Israel triplicou o seu espaço territorial. Em 2005 no entanto, um acordo de paz com o Egito possibilitou a devolução da Península do Sinai, quando foram retiradas as colônias judias da região da Faixa de Gaza e algumas da Cisjordânia. Apesar dessa atitude o governo israelense controla o espaço aéreo e marítimo da Faixa de Gaza, e regulamenta as viagens e o comércio palestino desta região com o restante do mundo.

E é exatamente na Faixa de Gaza, uma região muito povoada, que ocorre este mais recente conflito. Agora, sem colonos judeus, a região fica livre ao bombardeio das forças armadas israelenses. Por outro lado, o Hamas, partido majoritário no Conselho Legislativo Palestino, controla a região, sendo o seu braço armado responsável pelos ataques aos israelenses.

O exército israelense é invasor a princípio, pois possuindo um território muito pequeno entendem que não podem perder qualquer palmo de terra. Por isso, uma guerra para eles deve ser disputada dentro do território inimigo. Mas aí é que está a grande discussão. Na realidade os territórios são de quem? Além da briga pela terra, um outro motivo também muito importante é água.

A intolerância na região é muito grande, bilateralmente. Em um domingo pela manhã, no período em que eu estava lá, um grupo de jovens foi atacado por um “homem bomba”. Pessoas se aproximaram para socorre-los. Aí um segundo palestino se aproximou por trás de todos e se autoexplodiu. Um saldo de 21 israelenses e 2 palestinos mortos.

Agora, esse novo conflito entre o Hamas e o Exército Israelense. O início da tragédia foi a morte de três adolescentes israelenses pelo Hamas. Depois disso quantos outros morreram do lado de lá. Muitas mortes absurdas poderiam ser evitadas se houvesse um pouco de sensibilidade e de amor. As crianças são educadas que existe um inimigo logo ali. As excursões colegiais em Israel são protegidas por seguranças fortemente armados.

Não quero aqui tomar partido. Cada um vai tentar nos convencer das suas razões. Se conversarmos com um e com o outro, talvez saiamos convencidos pelos dois, mas é triste ver um rancor insaciável que me parece não acabar nunca.

Gostaria de um dia correr pela paz em Jerusalém, assim como fez a libanesa May El-Khalil, corredora e empreendedora da paz no Líbano, e também a fundadora da Maratona de Beirute, mas hoje eu tenho medo.

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